Terça-feira, 26 de Fevereiro de 2008

Espelho



Naquele dia C espalhou várias hipóteses de toillete
pela cama. Calça preta, camisola vermelha, calça preta, camisola verde esmeralda, calça de ganga escura com top amarelo torrado, calça de ganga clara com top roxo - as cores da moda...
C é vaidosa, sempre foi. Sempre teve muito cuidado com a escolha das toilletes. Quando vai às compras faz questão de pensar muito bem no que já tem no armário para poder fazer as conjugações que lhe parecem bem - roupa, mala, sapatos, acessórios - tudo num conjunto harmonioso.

Além de vaidosa, C sabia que era bonita. Toda a vida lho disseram. Sempre lhe gabaram a expressividade, a forma e a grandeza do olhar castanho. A maneira como os seus escuros cabelos encaracolam, desordenados e rebeldes. Os lábios grandes, carnudos, os seios generosos, as pernas longas.

Mas naquele dia, C olhou para a parafernália de roupa espalhada na cama e nada lhe pareceu seu. Tudo tão grande... as calças pareciam enormes sacas, as camisolas retalhos de tendas de campanha. Poderia ser aquela a sua roupa?

Vestiu-se já à pressa, sacudindo o estranho pensamento da mente, arranjou-se, terminado com umas golfadas do seu indispensável "Boss Intense". Meteu-se no carro, cantarolou a caminho do trabalho. Chegou e pôs-se à conversa com as colegas.

«Sabes C, és a gordinha mais elegante que conheço...»

C estremeceu. "Gordinha? Eu?" Soltou uma pequena gargalhada confiante, e disse «Gordinha elegante!? Pois!» E voltou ao trabalho, com vontade de ser engolida por uma súbita criatura das profundezas.

Mas porque é que lhe diziam que era gorda? Gordinha? Cheinha? Ela nunca se viu assim... perdia longos minutos ao espelho e nada via a não ser o seu escultural corpo no qual as suas roupas tão bem assentavam, o seu escultural corpo que já havia enlouquecido vários homens, o seu escultural corpo que alimentava os desejos do homem amado.

Chegou a casa e olhou-se ao espelho.
«Espelho meu, espelho meu... Quem sou eu?»
E viu-se, pela primeira vez.
Do alto do seu metro e setenta.
E dos seus noventa quilos.
«Serei eu apenas esta? Este corpo? Este alguém que a este corpo não pertence? Serei eu quem nunca vi? Imaginei-me toda a vida, não me VI?!?»

Do outro lado do espelho, a sua imagem falou-lhe.
«Olá... Pensei que nunca mais me vias! Gostas do que vês?»
Numa fúria C partiu o espelho, indiferente à ameaça latente de mil e um anos de azar.

E nunca mais se viu ao espelho.
música: Espelho Meu, Papas na Língua

Rabiscado por Mão Esquerda às 14:07
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4 comentários:
De redjanpais.blogspot.com a 26 de Fevereiro de 2008 às 23:19
E no entanto ... valeu a pena partir o espelho ? E esquecer que aquele metro e setenta e mais 90 kilos poderiam ser ... a noite ideal ??


De Mão Esquerda a 26 de Fevereiro de 2008 às 23:24
Já foram... e continuarão a ser... pelo menos assim se espera!

Obrigada pela visita... e pelas palavras, que nunca são em vão. Kiss*


De Oásis a 27 de Fevereiro de 2008 às 00:10
Olá!
Estava a ver que isto nunca mais tinha andamento! E que andamento! Se não gostarmos de nós, quem gostará?

Beijo, Cati!
Beijo, Sofia!


De joseph a 4 de Abril de 2008 às 22:24
Cati
Olá

C , soa-me a auto-retrato. Gosto muito da foto....
Se ter 1,70 e 90Kgs é ser GORDA, vou ali e já venho.
E não estou a falar para agradar.
Mantenho aquilo que sempre pensei, que vejo, e que é: UMA GRANDE MULHER.
Não é Gordura e, se fosse, Gordura é Formosura.

O que interessa é o que está dentro de cada um. Os olhos também comem, mas o que faz o carácter duma mulher, que a faz ser bonita ou linda, que a faz ser alegre, que a faz ser sensual, que a faz ser reservada... , que a faz ser como é, é o seu EGO.

Que importa o resto?

Gostei do texto. A Sofia, que penso não escreveu esta prosa, está linda também nas fotos do teu casamento.
Ela é diferente, sobretudo naqueles olhos maravilhosos, com autorização do Samuel....

Sempre a considerá-las e a gostar muito da vossa amizade virtual, embora as nossas terras não sejam muito longe umas das outras.

Beijokas beirãs (por residência);)**


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